Ana Célia Pinheiro
Publicado em 21/03/2026 07:06
A quase totalidade desse dinheiro seria do Fundeb, o fundo de manutenção do ensino básico e valorização dos profissionais do setor.
Mais de R$ 15 milhões já foram pagos pelo prefeito de Ananindeua, Daniel Santos, a empresas ligadas ao empresário Felipe Linhares Paes, preso pela Polícia Federal, no último dia 16, por suspeita de lavagem de dinheiro e outros crimes. Segundo o portal da Transparência, a quase totalidade desse dinheiro era do Fundeb, o fundo de manutenção do ensino básico e valorização dos profissionais do setor. Um dos integrantes da suposta quadrilha, Joedson Assunção Ribeiro, é assessor técnico comissionado (DAS 5), na Secretaria municipal de Saúde de Ananindeua (Sesau).
A suposta quadrilha envolveria cerca de 10 empresas de Felipe, a quase totalidade em nome de “laranjas”. Elas possuiriam contratos com várias prefeituras e com órgãos do Governo Estadual. O caso também envolveria deputados federais. Mas até onde se sabe, o maior volume de recursos pago a essas empresas saiu dos cofres da Prefeitura de Ananindeua, e com indícios consistentes de irregularidades. Tanto que, no último dia 13, o advogado Giussepp Mendes já havia denunciado o empresário ao Ministério Público do Pará (MPPA).
Segundo o advogado, os contratos entre a Prefeitura de Ananindeua e empresas ligadas a Felipe Paes apresentam indícios de fraude, improbidade administrativa, pagamento de “vantagens indevidas” (propinas), desvio de recursos públicos e ocultação patrimonial. Entre os envolvidos nas possíveis irregularidades estariam o prefeito Daniel Santos, o empresário e três empresas ligadas a ele. Giussepp acredita que o esquema é semelhante ao que detectado pela operação Hades do MPPA, inclusive com “ajudas” na aquisição de bens para o prefeito.
O advogado afirma ter obtido informações de que Felipe Paes é “sócio oculto e beneficiário econômico” da Royal Comércio e Serviços Ltda (CNPJ 42.292.768/0001-26). Segundo o portal da Transparência, a empresa já recebeu da Prefeitura mais de R$ 14,209 milhões, em valores crescentes: quase R$ 499 mil em 2023; quase R$ 3,6 milhões em 2024; e mais de R$ 10,1 milhões, em 2025. Outra empresa ligada ao empresário, a LGM Gráfica Ltda (CNPJ 18.709.499/0001-76), recebeu mais de R$ 891 mil da Prefeitura, entre 2021 e 2023.
Em ambos os casos, a maioria dos contratos foi com a Semed, a secretaria municipal de Educação. As duas empresas estariam em nome de “laranjas”. Mas, segundo Giussepp, há vários indícios da “influência” de Felipe Paes nas atividades delas, e de envolvimento dele nos supostos esquemas de corrupção do prefeito. O empresário participaria “da intermediação e operacionalização de pagamentos realizados por particulares e por empresas contratadas pela Prefeitura, valores estes que foram utilizados para aquisição de bens diversos em favor do prefeito Daniel Santos”, afirma.
Um impressionante laranjal
A Royal Comércio e Serviços (CNPJ 42.292.768/0001-26), cujo nome de fantasia é “Royal Gráfica e Editora”, possui um capital de R$ 500 mil e está registrada em nome de Juliana Guimarães Barros Ribeiro. O endereço da empresa é a Rua 28 de Setembro, 826, no bairro do Reduto, em Belém. É o mesmo prédio onde funcionaria (“nos altos, sala B”) a Royal Gráfica e Editora Ltda (CNPJ: 15.426.492/0001-59), que pertence a Felipe Paes. Mas imagens do Google Maps mostram que se trata de um prédio térreo, onde também não há placa indicativa do funcionamento de empresas.
As duas Royal compartilham até mesmo a principal atividade econômica: “impressão de livros, revistas e outras publicações periódicas”. E compartilham, ainda, um impressionante leque de serviços, mais comum em empresas de fachada: realizam podas de árvores, preparam terrenos para cultivo e colheita, pintam edifícios, limpam casas e prédios, vendem, no varejo, artigos esportivos, roupas e acessórios, produtos de limpeza, equipamentos de escritório. No entanto, ainda mais curiosa é a relação entre Felipe Paes e Juliana Guimarães Barros Ribeiro, a suposta dona da Royal que recebeu dinheiro da Prefeitura.
Segundo a PF, Juliana é esposa de Joedson Assunção Ribeiro, o assessor técnico da Sesau. Lá, ele recebia, até o ano passado, um salário bruto de R$ 2.393,00. Ele também recebeu auxílio emergencial na pandemia e já foi figurou no CadÚnico, para famílias de baixa renda. Mesmo assim, estão registradas em nome de Joedson três empresas, cujos capitais sociais somam R$ 1,6 milhão. Além disso, estão em nome dele um jeep Renegade, uma Honda Pop e uma Land Rover. Justamente a Land Rover na qual a PF prendeu Felipe Paes e mais duas pessoas, no último dia 16, após sacarem R$ 500 mil em dinheiro de uma agência do Banco do Brasil, em Belém.
Joedson não estava na ocasião. Quem dirigia o carro era Felipe Paes, que estava armado com uma pistola e tentou fugir, mas parou o carro após tiros de advertência dos policiais. No veículo também se encontravam Michel Silva Ribeiro, assessor do Governo do Estado já demitido pelo governador; e Ronaldy Rian Moreira Gomes. Foi Ronaldy quem sacou o dinheiro, da conta bancária da Solucione Produções Comércio de Livros e Serviços Ltda (CNPJ 06.954.182/0001-16), que está registrada em nome dele. Mas, segundo a PF, Ronaldy disse que é “laranja” de Felipe Paes e recebe R$ 3 mil mensais pelo “serviço”.
Ainda segundo a PF, em “declarações espontâneas” Felipe Paes teria confirmado que utilizou Ronaldy como “laranja”, para registrar a empresa. E que a Land Rover na verdade era dele, Felipe, embora registrada em nome de Joedson, seu “funcionário” e, também, “laranja”. Mas depois, em depoimento, o empresário invocou o direito de permanecer calado. A operação da PF foi deflagrada após um relatório do COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), que detectou movimentações “atípicas” pela Solucione, como o provisionamento bancário para saque de R$ 500 mil em espécie.
O fato levantou suspeitas de lavagem de dinheiro: a principal atividade da empresa é o comércio de livros, mas Ronaldy alegou que precisava dos R$ 500 mil em espécie para pagar fornecedores e “bandas”. Além disso a renda “presumida” dele não chega nem a um salário mínimo e ele é suspeito de lavagem de dinheiro para o tráfico de drogas. Mas em seu depoimento, ele disse que é empregado de Felipe Paes na gráfica Royal. E que teria ido ao banco sacar os R$ 500 mil a pedido do empresário, que precisaria do dinheiro para serviços de “produção musical”.
Empresário segue padrão comum ocultação de bens
A PF parece manter Ronaldy Rian Moreira Gomes como o seu principal suspeito, devido à suposta colaboração dele com o tráfico de drogas. Mas o fato é que o suposto laranjal de Felipe Paes segue o padrão das empresas destinadas à ocultação de bens e lavagem de dinheiro. “Fantasmas” ou “de fachada”, elas são criadas em pares ou “trincas” no mesmo endereço sem placa comercial, com nomes e atividades semelhantes, revezamento de laranjas, leque irrealizável de serviços, para que possam concorrer em todo tipo de licitação.
Enquanto uma “fantasminha” de menor porte fecha os contratos com o Poder Público, outra, que de fato existe, executa o serviço. As duas Royal parecem se encaixar perfeitamente nesse padrão. Assim como as duas empresas registradas em nome de Ronaldy: a Solucione Produções Comércio de Livros e Serviços Ltda (CNPJ 06.954.182/0001-16), de onde foram sacados os R$ 500 mil, foi aberta em 2004, mas só passou às mãos de Ronaldy em novembro do ano passado. A outra é a Solucione Comércio e Serviços Ltda (CNPJ 63.134.024/0001-53), que foi criada em nome de Ronaldy em outubro do ano passado.
Ambas têm capital de R$ 1,5 milhão, o mesmo nome de fantasia (Solucione), a mesma atividade principal, que é o comércio de livros. Funcionam no mesmo endereço, na Rodovia Augusto Montenegro, em Belém, e têm o mesmo número de telefone. Também possuem um leque de 36 atividades secundárias, que incluem instalação e manutenção de ar condicionado, serviços de engenharia, comércio varejista de tintas, eletrodomésticos, brinquedos, artigos de papelaria, cosméticos e roupas, locação de automóveis, transporte escolar, entrega rápida, produção musical, aluguel de palcos, controle de pragas e por aí vai.
É, também, um padrão no qual parecem se encaixar as três empresas em nome de Joedson Assunção Ribeiro, o funcionário da Prefeitura de Ananindeua. Elas são a Utilize Comércio e Serviços Ltda (CNPJ 58.023.635/0001-94), a Utilize Com. e Serviços Ltda (CNPJ 19.676.132/0001-66) e Utilize Produções e Serviços Ltda (CNPJ 48.713.752/0001-26). As duas primeiras têm como principal atividade o transporte escolar; a última, a produção musical. Todas funcionam no mesmo prédio, na Rua Dr Moraes, em Belém, nas salas 4, B e 3. Realizam de 40 a 50 atividades secundárias, algumas iguais às da Royal e da Solucione, como é o caso de poda de árvores, pintura de edifícios e comércio varejista de vários tipos de produtos.
Fonte: Diário do Pará
Link: https://diariodopara.com.br/para/empresario-preso-pela-pf-teria-recebido-r-15-milhoes-de-daniel/