DJ de 17 anos com autismo mira Rock in Rio e Tomorrowland

Aos 17 anos, DJ autista do Pará conquista palcos e sonha com Tomorrowland Foto Celso Rodrigues/Diário do Pará.

Irlaine Nóbrega

Publicado em 19/04/2026 07:08

 

 

O DJ Martin Blue tem se destacado na cena da música eletrônica como o primeiro DJ com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil

O DJ Martin Blue tem se destacado na cena da música eletrônica como o primeiro DJ com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil. Aos 17 anos, o jovem paraense acumula apresentações em eventos de grande porte e projeta carreira em festivais nacionais e internacionais, consolidando um percurso marcado por talento autodidata e dedicação. Entre desafios, o artista segue ampliando seu espaço e evidenciando o potencial de pessoas com autismo no cenário cultural.

 

Nascido José Pedro, o DJ Martin Blue é o primeiro e único DJ de música eletrônica do Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil. Com pegada voltada ao subgênero House e Trance, ele surgiu em 2023, aos 13 anos de idade, após uma oportunidade para participar do Festival TEAlentos, um evento artístico e cultural promovida pela Coordenação Estadual das Políticas para o Autismo (Cepa), da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), em parceria com a Secretaria de Estado de Cultura (Secult).

 

Mas foi muito antes disso, aos oito anos, que Martin Blue demonstrou o primeiro interesse no ramo musical, quando conheceu uma música do DJ Alok, seu maior ídolo e principal inspiração na carreira. Mais tarde, aos dez, o pequeno DJ ganhou um celular, onde baixou um aplicativo de mix que simula uma controladora. “Foi aí que ele começou a se chamar de DJ. A gente nunca ouviu essas músicas, ele produzia para ele mesmo”, conta o pai José Afonso.

 

Em maio de 2020, em meio à pandemia, Alok organizou a live “Alok em Casa”, transmitida para todo o Brasil. Fã, o garoto reuniu a família para assistir a apresentação do ídolo. O episódio foi considerado um marco determinante para o início do sonho de Pedro em começar uma carreira musical e conhecer o artista de perto. “Nós preparamos a sala todinha, colocamos uma televisão, arredamos os móveis, e fomos assistir. Pronto, daí ele disse que queria ser DJ e queria conhecer o Alok”, relata o pai.

 

Três anos depois, através de um vídeo curto circulado nas redes sociais, Martin Blue pôde conhecer o ídolo de perto, durante um show da turnê “New Experience”, quando Alok tocou em cidades das regiões Norte e Nordeste do Brasil. “É muita emoção ver o Alok. Eu gosto mais quando ele faz mix em músicas. Eu também fui nesse último show dele aqui em Belém, aquele da pirâmide, foi muito legal esse show”, diz Martin Blue.

 

REALIZAÇÕES

 

Atualmente com 17 anos, o DJ coleciona um feito importante ainda no início da carreira artística. Em 2024, Martin Blue foi convidado a se apresentar no palco “Karretinha” do Festival Psica, um dos maiores eventos de música e cultura periférica da região Norte do Brasil, realizado anualmente em Belém. Por volta das 20h, ele entrou em cena e levou o público do festival à loucura com as mixagens de músicas eletrônicas de artistas nacionais, como o próprio Alok, como de DJ internacionais famosos. “Foi realmente épico”, afirma Pedro.

 

“Acredito que a parte mais expressiva da vida dele foi quando ele tocou no Psica porque o o Martin tem esse sonho de tocar nos grandes festivais. Um dia fomos participar de um podcast e lá fizeram uma pergunta para ele sobre quais festivais ele queria tocar. Isso rolou nas redes sociais e chegou no ouvido dos meninos que são criadores do Psica, o Jefferson e o Gerson, que convidaram ele para tocar. Esse foi o momento mais expressivo da carreira dele até o momento”, lembra a mãe Nilde Azevedo, de 53 anos.

 

Projeções e Expectativas de Martin Blue

Agora, o menino projeta voos ainda maiores: tocar em festivais nacionais e mundialmente reconhecidos, como o Rock In Rio e a Tomorrowland, um dos maiores e mais influentes festivais de música eletrônica do mundo, realizado anualmente na Bélgica. “Eu espero que minha carreira seja boa. Eu quero chegar a tocar na Tomorrowland, no Rock In Rio e no Lollapalooza”, reforçou Martin. Com talento de sobra, o DJ ainda relata certa dedicação ao escolher o setlist para cada tipo de ambiente.

 

“Eu me preparo, sim. Eu ensaio, olho a ambientação primeiramente para ver se as músicas ficam boas”, revelou Martin. “Essa questão da ambientação, nós fomos um dia antes dele tocar no Psica e ele já tinha feito a playlist todinha. Quando ele olhou o espaço, ele chegou para mim e disse: “mamãe, eu tenho que mudar a minha playlist porque eu quero fazer um louco nesse Mangueirão. Ele foi dormir três horas da manhã, mas ele colocou novas músicas, mudou as que ele já tinha”, confirmou a mãe do artista.

 

Para Nilde, observar a dimensão do trabalho e esforço do filho é importante para entender a capacidade de pessoas com autismo. “Para mim é maravilhoso porque a batalha do autismo é dia a dia. Para nós é muito gratificante olhar e ver até onde ele chegou. E tudo isso que ele faz ninguém ensinou, ele aprendeu sozinho. Ele começou a gostar aos oito anos, mas não contou para a gente, quando soubemos foi surpreendente Daí a gente começou a correr atrás do sonho dele. Então, cada etapa, cada apresentação, entrevista, cada oportunidade que ele tem, para nós é gratificante, porque a gente vê o trabalho dele sendo reconhecido”, relatou a artesã e dona de casa.

 

Desafios Enfrentados

DESAFIOS

 

Apesar do talento e do empenho do filho, José Afonso relata certa dificuldade para seguir na carreira musical. A falta de patrocínio e alto custo dos equipamentos são alguns dos maiores obstáculos nesse sentido. “A gente nunca teve apoio de ninguém, ele atua como artista independente. Queremos investir nele, mas os custos são altos e os equipamentos que temos já estão defasados para o que ele quer fazer. Ele tem um talento, mas quem corre atrás de tudo somos eu e a mãe dele, mas a gente não é do meio artístico, o que se torna mais difícil”, conta o pai, de 45 anos.

 

Com um artista diferenciado em casa, Afonso enxerga na música um futuro promissor para o filho. “Eu sei que ele tem muito talento, ele é diferenciado, mas vejo uma falta de oportunidade. Mas tenho certeza que ele vai conseguir terminar alguns projetos dele na música. Ele tem produzido música autoral e toca nas apresentações sem dizer que é dele e ninguém percebe a diferença. A gente acaba ficando surpreso porque são batidas muito boas”, relata.

 

“Ele foi chamado para tocar no Círio Iluminado e pediram para ele fazer uma abertura com sons de pássaro, pegadas de animal. Ele fez um sonzão pancada mesmo, apresentou e mostrou que tem competência. Então, percebo que falta a oportunidade. Nessas apresentações a gente faz mais para a divulgação do trabalho dele porque se não for isso ele nem sai para se apresentar”, finaliza o motorista.

 

Fonte: Diário do Pará
Link: https://diariodopara.com.br/para/dj-de-17-anos-com-autismo-mira-rock-in-rio-e-tomorrowland/